“A coisa aqui tá preta. Educação, skole, shola, SOS”

“A coisa aqui tá preta. Educação, skole, shola, SOS”

No decurso desta semana estive envolvido na edição do livro “Discipulado consistente” do pós-doutor em sociologia João Pedro Gonçalves Araújo e este trecho me chamou atenção: “a escola (skole, grego) significava um lugar de lazer, diversão. No latim, schola, era o espaço onde as pessoas de posse e com tempo ocupavam-se em fazer exercícios intelectuais, sem visar a outros resultados que não o enriquecimento mental. Com o tempo, a escola passou a ser um local da educação sistemática e formal. O comércio e a produção exigiram o ensino e sistematização da escrita, numeração, cálculo e controle de mercadorias através das anotações. Cada novo progresso, conhecimento de outros povos ou descoberta exigia novos saberes.”

Importante ser editor que trabalha, que busca informações, e como consequência vive-se aprendendo… Mas como, neste espaço existe um aparelho de televisão bem defronte, logo a notícia veiculada me tirou o foco do livro, pois, se referia ao caso da adolescente, morta dentro da escola em Acari no Rio de Janeiro; e em seguida, apareceu um professor falando da dificuldade em ministrar aulas na favela da Maré. Acari sempre me foi muito próximo, pois fui criado, até a pre-adolescência em Guadalupe (antiga Fundação) um bairro bem próximo de Acari, minha mocidade foi em Campo Grande-MS. Editei uma revista do jubileu de ouro do Pr. Theodomiro da Primeira Igreja Batista da Pavuna, onde questionei acerca do trabalho social de sua igreja em Acari, bairro ao lado da Pavuna. No meu tempo de criança não existia favela em Acari e nem na Maré. Acari, Pavuna e Guadalupe são os fundinhos da zona norte do Rio de Janeiro-RJ.

Triste a vida dos alunos, pais e professores nos bairros do Rio de Janeiro onde se faz necessário pedir autorização aos chefes do crime da região para poderem lecionar, inclusive as igrejas precisam de autorização para cultuar e prestar assistência social. Lembro de um fato recente, onde um amigo, coronel da reserva do Exército, e pastor, foi pregar em uma igreja em uma dessas comunidades, mas para entrar o pastor local tinha que ir na frente, no carro dele, abrindo o caminho e dizendo que o carro de trás estava com ele. Muito triste e penoso constatar que o crime organizado prevalece e o cidadão se torna uma pessoa de segunda classe.
No meu tempo de escola pública – Bélgica em Guadalupe – a escola tinha o mesmo significado da escola da antiga Grécia: lazer e diversão. Creio que ainda exista lazer e diversão nas escolas das comunidades carentes do Rio de Janeiro. A escola deveria primar por oferecer sim novos saberes aos alunos, mas, não conseguem oferecer nem os velhos saberes… a realidade é que a cada três escolas municipais no Rio de Janeiro, uma foi fechada recentemente.

Na contramão da realidade Brasil, com seus milhares de brasis dentro do território, surge a lembrança do Plano Nacional de Educação, que foi instituído em 2014, e diz o governo – no papel – que está em pleno movimento: “O Plano Nacional de Educação (2014/2024) em movimento” – O Plano Nacional de Educação (PNE) determina diretrizes, metas e estratégias para a política educacional dos próximos dez anos. O primeiro grupo são metas estruturantes para a garantia do direito a educação básica com qualidade, e que assim promovam a garantia do acesso, à universalização do ensino obrigatório, e à ampliação das oportunidades educacionais. Um segundo grupo de metas diz respeito especificamente à redução das desigualdades e à valorização da diversidade, caminhos imprescindíveis para a equidade. O terceiro bloco de metas trata da valorização dos profissionais da educação, considerada estratégica para que as metas anteriores sejam atingidas, e o quarto grupo de metas refere-se ao ensino superior. – http://pne.mec.gov.br

Como em movimento, se escolas de primeiro grau, as mais imprescindíveis, estão sendo fechadas, as centenas? Como? SOS!

A produção de analfabetos funcionais no Brasil é recorde. Com uma escola de pouca qualidade e em meio a tanta crise, certamente construiremos nas futuras gerações, mais analfabetos funcionais do que na atual. É um quadro desesperador! Milhares, talvez milhões de pessoas, com o diploma de nível universitário sem saber ler e escrever em consonância com a norma culta da língua. Sem saber pensar… “Quem não pensa, é pensado”, já dizia Sócrates que faleceu em 399 aC. Sonham com o diploma universitário obtido através de uma máquina de convencimento publicitário onde se investe nos sonhos e anseios das pessoas sem pensar na viabilidade de tais sonhos; a busca primeira é pela venda do produto que as universidades dispõe: o diploma, com ou sem o saber… É inegável a contribuição do ensino particular à cultura brasileira, bons exemplos de muito sucesso como o do Cursinho Objetivo que cresceu tanto que montou uma das mais ricas universidades do país – UNIP – e já estava com tudo pronto, é o que dizem, para lançar o curso de medicina para mil alunos, mas o governo suspendeu novos cursos no país. Os católicos sempre se destacaram no ensino privado, em todos os graus, mas vale destacar a atuação dos salesianos, que quietos promovem uma revolução cultural no país. Os bons exemplos dos evangélicos passam pela novidade dos colégios adventistas, a universidade dos presbiterianos – Mackenzie – e os colégios batistas do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Maranhão e Ceará, são destaques há décadas.
Precisamos de um novo modelo de educação no país, onde as crianças sejam a prioridade, principalmente as que estão em áreas de grande risco. Precisamos de um novo modelo onde o aprendizado seja para a vida, para a busca do se bastar, com dignidade.

Concluo com a música do Chico Buarque, pois com base no Censo Escolar 2017 (base 2016) temos 9.898.360 crianças no período parcial nas sérias iniciais e somente 2.209.791 no período integral… deveria ser ao contrário. Nas sérias finais é pior ainda: 8.565.075 no período parcial e somente 1.383.289 no período integral. Mas é no ensino médio, onde o aluno deveria se preparar para as escolhas profissionais para a vida adulta que o quadro é extremamente pior: 6.181.439 na parcial e ralos 500.988 no integral. Realmente a coisa aqui tá preta, meu caro amigo… https://www.youtube.com/watch?v=OkcX5n3c_Nw

E que Deus nos abençoe para buscarmos e viabilizarmos soluções construtivas para a educação das crianças e jovens de nossa terra.

No portão de entrada de uma Universidade na África do Sul foi afixada a seguinte mensagem para reflexão:

​” Para destruir qualquer nação não é necessário usar bombas atómicas ou mísseis de longo alcance. Basta apenas reduzir a qualidade da educação​ e permitir que os estudantes ‘cabulem’ nos exames .​”​

Pacientes morrem nas mãos de tais médicos.

Edifícios desabam nas mãos de tais engenheiros.

Dinheiro perde-se nas mãos de tais economistas e contabilistas.

A humanidade morre nas mãos de tais eruditos religiosos.

A justiça se perde nas mãos de tais Juízes…

_”O colapso da Educação é o colapso da nação.”_

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