Anna Eliza Simonetti Polastri de Oliveira Francisco: A IGREJA E A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

Uma pesquisa realizada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie revelou que 40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas. Os dados são alarmantes e não podem ser recebidos sem promover a devida reflexão e enfrentamento por parte das igrejas. Tais números nos colocam diante da urgente necessidade de empreender ações concretas para que haja justiça e relações equilibradas entre homens e mulheres em todos os espaços, inclusive os religiosos. Afinal, é preciso ressaltar que a violência contra a mulher não é um problema pessoal, tampouco localizado, mas origina-se na constituição desigual dos lugares de homens e mulheres nas sociedades, com fortes implicações na forma como homens e mulheres são encarados e como se dão as relações de poder entre machos e fêmeas.

Histórica e culturalmente, as mulheres recebem da sociedade a determinação de ocuparem um lugar inferior ao dos homens no que tange às relações de poder. A estes, é dado o “direito” de agir sobre “suas” mulheres (esposas, filhas, namoradas, enteadas, mães, irmãs…) como se suas posses fossem. A violência passa, então, a ser justificada das formas mais absurdas: desejo de proteção, falha moral das mulheres, comportamento inadequado e, pior de tudo, até mesmo “biblicamente”. Não é raro encontrar quem justifique a violência doméstica com base na afirmação da submissão feminina, presente no texto de Efésios.
Antes de qualquer coisa, é preciso compreender que a questão da justiça nas relações entre homens e mulheres é totalmente coerente com o ensino da Bíblia Sagrada. Antes mesmo de falarmos de pacificação das relações é preciso recorrer à Palavra de Deus para falarmos sobre o equilíbrio das relações. Afinal, a base da violência não está no comportamento violento em si, mas na compreensão de lugares desiguais para homens e mulheres, a partir dos quais a violência é justificada.
Embora os relatos da criação em Gênesis 2 tenham sido, às vezes, interpretados para reforçar a desvalorização das mulheres em relação aos homens, precisamos relembrar que o ponto de partida precisa ser Gênesis 1.27, cujo pressuposto é o da igualdade. Deus criou homens e mulheres à sua imagem, dotados de igual valor e dignidade. Além disso, a ética do amor e do cuidado revelada em Cristo Jesus precisa ensejar um compromisso ético de serviço e cuidado entres todos os seres humanos, que devem ser servos uns dos outros, mordomos uns dos outros e de toda a criação.

Os Evangelhos deixam claro que a forma como Jesus se relacionava com as mulheres se caracterizava por abertura, inclusão, aceitação e restauração. Mulheres acompanharam o mestre sem nenhuma distinção em relação aos homens (Lc. 8.1-3); assentaram-se aos pés de Jesus para aprender, algo inadmissível em seu tempo (Lc. 10.39); seguiram e serviram ao Cristo durante todo o seu ministério terreno e subiram para Jerusalém dispostas a morrer com ele se fosse preciso (Mc. 15.40-41); foram testemunhas da sua crucificação (Mc. 15.40-41; Mt. 27.55-56; Lc. 23.49; Jo. 19.25); foram testemunhas do seu sepultamento (Mc. 15.47; Mt. 27.6); foram testemunhas da sua ressurreição (Mc. 16.1-8; Mt. 28.1-10; Lc. 24.1-10; Jo. 20.1-8); foram enviadas para contar aos outros da ressurreição (Mt. 28,10; Jo. 20.17-18); receberam o Espírito Santo (At. 2.4); lideraram a igreja nascente (Rm. 16.3-4).

Cabe ressaltar que a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira enfatiza que a Bíblia Sagrada deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinamentos de Jesus Cristo. No que tange à leitura de textos que, à primeira vista, parecem colocar a mulher em relação de inferioridade aos homens, esse direcionamento da nossa declaração doutrinária torna-se imprescindível.
É inegável que a Palavra de Deus é palavra de vida abundante para todas as pessoas – mulheres e homens. Como comunidade de iguais, a igreja precisa anunciar que o reino de Deus chegou para todas as pessoas, promovendo justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm. 14.17). Mas, como é possível anunciar a chegada do reino, se as relações entre homens e mulheres ainda são injustas? Como anunciar que o reino está entre nós se não há paz nas relações domésticas e eclesiásticas, e mulheres ainda sofrem todo tipo de violência? Como perceber que o reino de Deus está presente se a alegria não se faz concretizar em tantos lares cristãos?

Ainda há um enorme caminho a ser percorrido do ponto de vista da transformação das relações sociais entre homens e mulheres, a fim de que tais relações sejam mais justas e equilibradas e toda sorte de violências contra as mulheres sejam, de fato, superadas.

Nossas comunidades precisam compreender que esse enfrentamento é parte de nossa espiritualidade e está intimamente associado à nossa responsabilidade cristã. Enquanto esses números escandalosos permanecerem, nós falhamos no cumprimento do “ide” de Jesus, que inclui pregar a boa notícia a todas as pessoas. Para muitas mulheres, a boa notícia e a nova vida em Cristo ainda são uma utopia.

Assim, faz-se absolutamente necessário um trabalho contínuo com as igrejas e suas lideranças no sentido de sensibilizá-las para as questões de gênero. Nossas iniciativas de discipulado precisam incluir o ensino das realidades que envolvem as mulheres no Brasil e o ensino de uma masculinidade que não seja violenta e opressora, mas que tenha no Cristo seu modelo de amor e atitude. Nossas igrejas precisam oferecer alternativas de fortalecimento das mulheres e programas de apoio às vítimas de violência, além de incentivar seu acesso aos espaços decisórios, de liderança, ação e representatividade, tanto na esfera pública quanto na eclesiástica.

Enquanto as relações permaneceram injustas, a violência permanecerá. Até quando fecharemos os olhos para essa realidade? Até quando minimizaremos o problema? Até quando nos negaremos a ser um sinal da chegada do reino de Deus aqui e agora?

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Pra. Anna Eliza Simonetti Polastri de Oliveira Francisco é pastora auxiliar na Primeira Igreja Batista em Goiabeiras – Vitória/ES. Bacharel em Serviço Social pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo); Bacharel em Teologia pela Faculdade Unida; Especialista em Intervenção Sistêmica com Famílias pelo CRESCENT/FDV; Especialização em Teologia e Literatura Paulina pela Faculdade Unida (em andamento).