DISCIPULADO CONSISTENTE – JOÃO PEDRO GONÇALVES ARAÚJO

 

INTRODUÇÃO

No primeiro ano de Teologia, estudei o que chamávamos “O Curso do discípulo”. Basicamente, estudávamos aquelas disciplinas que os diretores e professores, tinham elencado e elegidos, como necessárias e básicas para a formação de um cristão. Aprender a ser discípulo era mais importante que o trabalho que a pessoa faria ao final do curso. Ainda mais importante que a função que viesse a exercer na máquina administrativa da denominação ou igreja.
Fundamentalmente, o curso propunha o aprender a estudar a Bíblia sozinho, sem o auxílio de comentários, dicionários, mapas ou pesquisa na Internet (o que não tinha ainda). Junto com o aprender a estudar a Bíblia, conhecer os princípios da adoração pessoal e coletiva. Em terceiro lugar, uma disciplina chamada “Vida Cristã”. Não se aprendia a pregar ou administrar, mas a viver como um discípulo de Jesus.
Tendo sido transferida de Floriano, no Piauí, para Brasília em 1976, muitos líderes daquele tempo não sabiam ou dominavam a nomenclatura do Estudo Bíblico Indutivo. Treinados numa tradição em que o pastor deveria pregar bem e saber tudo, davam seus jeitos para que os futuros alunos de Teologia saíssem de suas igrejas para as instituições onde haviam estudado, Rio de Janeiro e Recife. A primeira, com mais de mil quilômetros de distância e a segunda, com mais de dois mil. Professores e pastores egressos de outras instituições nos criticavam. Diziam que dávamos mais importância a “compartilhar” um estudo bíblico do que a pregar.
Mais tarde, foi acrescentada ao “Curso do Discípulo” a disciplina “Companheiro de jugo”. Os diretores entendiam que a vida cristã se tornara complexa e que poderia ser vivida de forma mais equilibrada quando partilhada com outra pessoa ou com um grupo pequeno. Pedido de ajuda, confissão e prestação de contas faziam parte das práticas diárias dos alunos.

Alguns dos professores, que entendiam a proposta do discipulado, nos desafiavam a pensar em uma igreja onde o compartilhamento, a vivência, a prática da Palavra e os pequenos grupos de estudos poderiam ser uma realidade. Ouvíamos aquilo como um ideal. Não conhecíamos, no entanto, nenhum modelo visível ao nosso alcance em que pudéssemos ver aqueles conceitos na prática. Compartilhamento, confissão, pequenos grupos de estudos e edificação… pareciam heresia no último quarto do século vinte em Brasília.
Em virtude desse contexto, li vários livros que surgiram por aquele tempo e nos anos seguintes que tinham discipulado e igreja como temas principais. Ainda assim, nosso conhecimento era teorético. Só mais tarde vim a entender o que alguns dos nossos professores faziam; eles nos discipulavam: nos levavam para suas casas, passeavam conosco, mostravam interesse em nossos estudos e família. No entanto, não nos diziam que estavam nos tratando como discípulos.
O que líamos e ouvíamos dos professores ficou em nossa mente. Sempre acreditei, portanto, que um modelo informal de igreja, um ensino prático das Escrituras e o uso de pequenos grupos de estudo sempre poderiam ser uma realidade. Essa figura imaginária possuía a minha mente, e, de certa forma, sonhava com ela e esperava materializá-la um dia.
Por isso, à proporção que materiais de discipulado iam sendo publicados, eu ia dando um jeito de adquiri-los. Quando ouvia sobre determinados ministérios contemporâneos, com formas contemporâneas de ser e fazer igreja, procurava conhecer e me perguntava como colocar tais coisas em prática na minha realidade. Anos mais tarde, a literatura sobre pequenos grupos começou a aparecer no Brasil. O último quartel do século vinte foi fértil na publicação de literatura nessa área e algumas igrejas começaram a praticar esse modelo de igreja.
Todo material me era útil. Contudo, à proporção que ia lendo, ficava com a sensação de que algo estava faltando, então, eu me obrigava a pensar e até a escrever algo sobre o tema. Ao mesmo tempo, me proibia de tal tarefa. Depois de vários anos, resolvi escrever o que penso. O material que aqui está, é, antes de tudo, uma resposta para mim, fruto das minhas buscas para aquilo que acredito ser um modelo de ser igreja e de fazer discípulos.
Como todo material produzido, pouco se tem de original. Ele é constituído de diálogo, dívida, conversa, complemento e crítica de outros autores. Ao mesmo tempo que é uma forma de expor o seu pensamento e crença, fazemos algumas análises e contrapontos em relação às práticas nas igrejas contemporâneas.
Tratamos educação cristã, aqui, como constituída de elementos que vão além da sala de aula, de um currículo e do professor. Nossa proposta é apresentar o discipulado como um conjunto de ações e passos que ajudarão na formação do caráter de Cristo na vida do seguidor. Discipulado Consistente é o conjunto de ações que, a partir de exemplos e ensino bíblico, do uso dos dons espirituais, da autoeducação e da vivência nos pequenos grupos, forja esse caráter na vida do cristão.
A igreja, fora do ambiente de adoração que acontece aos domingos, constitui-se, também, de vários outros grupos menores que ajudam a formação e a caminhada do seguidor de Jesus. Deus mesmo providenciou ambientes e ocasiões em que Seus filhos deveriam estar presentes para aprender a ter robustez na fé. Reuniões de estudos bíblicos, grupos nas casas para discussão e aprendizado, recepção e uso dos dons, são elementos incontestáveis nas páginas do Novo Testamento; princípio presente desde a constituição do povo no Antigo Testamento.
A vida cristã, contudo, não é vivida apenas no contexto da coletividade. É também. Viver coletivamente é tão verdadeiro como a necessidade de cada filho de Deus assumir as rédeas do seu próprio crescimento espiritual. Deus colocou seus filhos em um corpo. Ao mesmo tempo, mandou cada um desenvolver a sua salvação, comunhão e conhecimento do Pai, do Filho e do Espírito através de exercícios pessoais essenciais ao crescimento espiritual. O ambiente comunitário e o esforço individual são as duas pernas da vida cristã.
Discipulado Consistente é a tentativa de responder a modelos sobre os quais temos ouvido, lido e aprendido ao longo do nosso aprendizado e ministério cristão. O discipulado, conforme nossa abordagem, é mais que uma aula dominical ou particular: é a partilha da vida na vida. Não temos mais falta de literatura sobre discipulado. Ao contrário, há muito material. A superpopulação de livros e apostilas criaram um problema contrário ao que tínhamos. Agora, são tantas as abordagens sobre discipulado que o conceito pode significar coisas muito diferentes.
O discipulador é um servidor do discípulo. Não se trata de algo invasivo, verticalizado e criador de dependência do discípulo em relação ao discipulador. É, se se quiser, um ensino libertador.
Um termo tão amplo como discípulo no Novo Testamento, com mais de duzentos e sessenta aparições, merece estudos constantes e consistentes. Estamos conscientes de que o nosso estudo não esgota o assunto. Além disso, há várias outras palavras com o mesmo sentido de discípulo que aumentam mais o leque, significado e importância do termo para a igreja e para os cristãos.
Ao mesmo tempo em que este material é um tipo de resposta a algumas questões sobre o tema proposto, suscita novas perguntas de quem lê, estuda ou se interessa pela questão. Como pontuado antes, todo livro é o resultado do diálogo, dívida e discordância de um autor com todos os autores que já escreveram sobre o mesmo tema antes dele. Dessa forma, um material como este serve como complemento do que já foi escrito e deixa um convite para ser ultrapassado por novos escritos.
Esse também é o objetivo do material que aqui está.