Editorial 27.10.2018

“A pipa verde-amarela… e a verdade”

Vital Sousa

Garoto, gostava de soltar pipas. Uma pipa no alto, bem empinada, com dois carretéis de linha 10, varava o horizonte, 1000 jardas, quase 1000 metros de altura… lá encima os ventos são mais fraternos com os meninos de rua, e os debiques são magistrais. Eu preferia as verde-amarelo, aprendi rápido a confeccioná-las descobrindo que o segredo para ficar bem no alto se encontrava em seu cabresto bem ajustado e, em uma boa rabiola, proporcional ao seu tamanho. Sem cerol se tornava muito vulnerável, sujeito aos cortes… tentava fugir dos cortes, mas, nem sempre conseguia. Alguns cortava e ainda amparavam-na, no ar. E as levavam para si… Quando “cortado” a minha pipa se esvaia, caindo mansamente do céu, brincando, vagarosamente, vertiginosamente, impiedosamente… levemente mais pesada do que o ar, caia devagar, agora sem as amarras da linha, do cabresto, do contra-fluxo do vento, sem vento não tem pipa no céu.
Nesta semana foi inevitável relacionar o Brasil com a minha pipa. Nosso país também sobe e desce, e, sofre ao sabor dos ventos, mas, quando cortado pela corrupção a frustração é tremenda, a grande diferença é que a frustração não é de um menino sonhador, mas, de uma nação inteira, de quase duzentos milhões de pessoas. A corrupção mata. Nada mais atual do que as palavras de Bertolt Brecht para refletir, clique no link abaixo e leia e reflita você, também: https://www.revistaforum.com.br/119-anos-de-brecht-e-o-analfabeto-politico-continua-a-existir/?fbclid=IwAR11y4Je4SLjpXSG8KFahdy6tylsFwNI52stUs6UuG_g27VR2hLakNDmv9k
As palavras de Brecht “martelam” em minha cabeça, penso logo no preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato, do remédio e de todos os outros preços, muitos injustos, nesta pátria campeã de impostos. Reflito também na situação das prostitutas, dos menores abandonados, nos assaltos e mortes diárias por violência nesta terra brasilis.
Bom ser menino, isento ainda das concupiscências e vicissitudes políticas. A pipa bem no alto era o sinal de felicidade, nada se sabia ainda da efemeridade e da crueldade humana. Bom ser inocente. Ao ver todas as armações, ilações, ciladas, uso indevido do dinheiro do povo e o povo sofrendo, sem uma educação condizente, sem bons hospitais, sem segurança direito, manipulações a torto e direito… tristeza.
Mas é chegado o dia de optar. Duas opções dificílimas. A corrupção avassaladora me deixou perplexo e indignado. As pessoas foram compradas, as instituições também, ações realizadas no total desinteresse pelo país e por sua gente; e com o oferecimento de migalhas, como na história das galinhas quando se arrancam todas as suas penas e elas sentem muita dor, mas, mesmo “nuas”, comem na sua mão, ao oferecimento de poucos grãos de milho, bem de acordo com o dito popular “Galinha de casa não se corre atrás”.
Na miopia de Carlos Drummond de Andrade existiam duas verdades, na porta entre aberta. A relatividade de Drummond se dá mais no olhar da verdade do que na verdade em si. A poesia do grande escritor é fenomenal, mas, não existem duas verdades, existe apenas uma; cabe agora optar qual é a fidedigna: “Mas carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.” Compartilho, leia em: https://www.asomadetodosafetos.com/2016/03/verdade-por-carlos-drummond-de-andrade.html?fbclid=IwAR2aAItxolV3fqONP2DdUBlG7GSuxMBTCSptuRviCO7jpnBHvXMcjN3AKkM

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” (Jo 8,32) Jesus fala de si, como a verdade que salva. É espiritual. Portanto, Ele é a verdade, nos termos teológicos. Tal versículo tem sido usado com outros sentidos, principalmente para se deixar a ignorância e assim ser liberto. E isto é verdadeiro. Nada demais sob o ponto de vista cultural, já que tantas frases legadas à humanidade tem sido utilizadas de diversas maneiras, e nem sempre em coerência com a criação do autor. O sentido figurado tem sido usado e abusado na literatura, ao longo dos séculos.
Hora de optar, opte por sua vida, pela vida dos habitantes desta nação chamada de Brasil. Opte pelo fim da corrupção. Opte por escolas e hospitais. Opte por segurança. Opte por emprego. Opte pelas crianças, opte pelo futuro. Opte por vida. Bis. Sonhe e opte por sua pipa no alto, segura. E aja pautado e pautando em verdades cristalinas, as quais o seu coração conhece e sabe muito bem discernir.
Bom voto.
Boas eleições.
Que Deus nos abençoe.