Editorial de 18.11.2018

“No volante olhando para a frente, mas, consultando sempre os retrovisores…”
Vital Sousa

“Em verdade, em verdade vos asseguro que se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanecerá ele só; mas se morrer produzirá muito fruto.” João 12:24,32

Os espelhos dos retrovisores nos apontam o que ocorre atrás… mas nunca poderemos perder o foco do que está à nossa frente. É a lógica do motorista, é a lógica da vida, é o óbvio. E ululante!

Dois fatos marcaram, para mim, os últimos dias. São óbvios. E os dois se referem à saúde. Um alegre e outro triste. Ambos retratam solidariedade, doação, amor e foram denominados com nomes parecidos: “Carretas da Saúde” e “Saúde na estrada”. A tristeza e a alegria vivenciadas conjuntamente e, em uma real ambivalência entre a crueldade e a bondade, extremos do dualismo brasileiro.

A morte estúpida do médico Roberto Kikawa, idealizador das Caravanas da Saúde, do Sistema Único de Saúde (SUS) é o fato triste e que nos deixou perplexos. Viver no Brasil se tornou um risco permanente, pois a vida do semelhante se tornou tão banalizada e desvalorizada que nos é impossível narrar a selvageria em que vive nossa sociedade atual, provocando comoção por tanta vida produtiva se esvaindo de maneira brutal. Certamente que a leitura do versículo em tela, intrinsecamente, nos levará, por tabela, entender que o legado do Roberto Kikawa, germinou com muitas “carreatas” no Brasil, entretanto esta semente não abate a dor tanto dos familiares, dos amigos e da sociedade que sente e se indigna pela estupidez do fato ocorrido. Nós é impossível entender o preço pago pela vida ceifada do médico, e a sandice dos jovens despidos dos valores humanos, capazes de respeitar o que é a vida, de fato…

Olhando para a frente… recebo a bela notícia da Caravana da Saúde da Convenção Batista Mineira – “Saúde na estrada”, já literalmente no asfalto. Que projeto solidário e amoroso para com o próximo! Tenho uma empatia muito grande pelo Mato Grosso do Sul, minha origem da parte materna, e, onde residi na adolescência e lá as “Caravanas da Saúde” são marcas indeléveis na vida de muitas comunidades; agora em Minas Gerais os batistas lideram este movimento, que de tão feliz e amoroso poderá ser exemplo, principalmente entre os religiosos, deixando a teoria para prática: amor, viver amor sem proselitismos, já que vivemos em um país de grandes carências, principalmente no interior, onde falta o básico para dignidade humana como médicos, hospitais, exames, etc. Ainda ontem 15.11.2018 – um doente narrou na tv a sua peregrinação em Goiás para fazer hemodiálise, mais de quatro horas de ida, quatro horas na máquina, quatro horas de volta, dormiu… “viveu” um dia e no outro dia mais uma peregrinação… é a vida, sem vida. E isto sem pensar muito na qualidade das hemodiálises onde o uso de cateter que deveria ser uma exceção, pois infeccionam com mais facilidade do que o ideal – uma fístula – e diminuem o tempo de vida dos que necessitam de tais cuidados. E por isto tais caravanas se tornam tão relevantes, com vários tipos de atendimento, inclusive operações simples, como cataratas, recuperando a visão de muitas pessoas, realizando prevenção, muita prevenção que pode até diminuir o uso da hemodiálise.

Temos sim que olhar nos retrovisores e exigir que fatos como o ocorrido com o Dr. Roberto não se perpetuem, como algo corriqueiro do nosso mundo cão. Temos que demonstrar nossa repulsa, nossa indignação, exigindo mais segurança, mas, nos é fundamental e de forma individualizada, olharmos para frente e seguir o trecho assumindo nossa responsabilidade na grande avenida chamada de Brasil, sendo solidários com os mais necessitados, seguindo o exemplo dos batistas mineiros e do Dr. Roberto.

Que as sementes de trigo por eles plantadas possam produzir muito fruto, na terra brasilis onde os políticos se locupletaram tanto, deixando a população carente de serviços médicos básicos, ações como do Dr. Roberto e dos batistas mineiros são bálsamos e sempre bem-vindas. Gratidão pela vida e visão de vocês.
E que Deus nos abençoe.