Marcos Amazonas Santos: Um presente melhor

Não existe futuro. Temos o hoje como o resto das nossas vidas. E o tempo de fazer a diferença é hoje.
Segue mais um texto.

Um presente melhor
No corre-corre da vida, na azáfama do dia-a-dia, busca-se galgar uma posição melhor e no stress diário, esgota-se, desgasta-se, na tentativa de se construir um futuro melhor. Entretanto, nesta corrida desenfreada e no desejo de um futuro melhor, despreza-se o presente e deixam-se de lado, sentimentos e emoções e como diz o povo, mata-se um leão por dia e nesta guerra, matam-se as relações, destroem-se famílias, criando-se uma sociedade hedonista, permissiva e consumista. Vive-se o vazio, onde os filhos são criados por estranhos, estão presos com a chave do lado de fora, entregues a si mesmos, sem referenciais, sem afetos e crescendo em desafetos, pois ouvem cada vez mais que precisam ser os melhores, que tem que ser alguém na vida, como se já não o fossem.
E assim, a correr, perde-se a oportunidade de uma refeição em família. A refeição deixou de ser um ponto de encontro, e agora ela acontece em restaurantes estilo fast food, onde não há cumplicidade, senta-se ao lado de um estranho, partilha-se a mesa e ninguém se importa com o outro. Devora-se a comida e corre para resolver alguma coisa ou volta-se para o trabalho. Esgota-se, desgasta-se e desgasta a relação, pois cada vez mais vive-se o desencontro, onde deveria haver encontro e reencontro. A casa virou apenas um lugar de repouso, os familiares tornam-se hóspedes e desconhecidos, pois investe-se mais tempo nas relações profissionais, com “pseudo-amigos”, que partilham o desejo de grandes coisas, mas que não percebem que o maior dos tesouros está próximo, no presente e este está sendo renegado e deixado para segundo plano.
No corre-corre da vida, a vida segue sua rotina e o tempo não acelera porque cada um vive desesperadamente. E este consumismo louco, o hedonismo que tem tomado conta do ser, faz com que, ao invés de afeto, de sentimentos e emoções profundas, viva-se o vazio. No lugar de uma comunicação aberta e sincera, em vez do sentimento e entrega do ser, pais dão coisas e pensam que coisas servem para formar o ser e o caráter. Esquecem que, toda permissividade, o dar coisas sem dar valores, cria uma sociedade vazia, permissiva, onde jovens deixam de valorizar tanto o ser como o ter, pois tudo é substituível na hora que se deseja e é justamente por isso, que cada vez mais vemos o aumento da violência.
No corre-corre da vida, há o desejo de um futuro melhor. A construção de uma vida com mais condições, com mais coisas e quando estas chegam, percebe-se que as mesmas, não são construtoras de felicidade. Quando as pessoas percebem que investiram no ter e não no ser, os filhos já estão crescidos, tornaram-se verdadeiros desconhecidos. Ganharam muitas coisas, menos a essência do ser. Talvez, somente talvez, se aqueles que desejam ganhar muitas coisas, terem o mundo para si, parassem um dia, somente um dia, para poder sentar e dedicar a vida aos que estão presentes, percebam que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma, perder a sua essência.
Na correria do dia-a-dia, no desejo de amealhar coisas, não nos damos conta, que também amealhamos dores, tristezas enormes e tudo isto, por causa de um desejo de ganhar cada vez mais e quanto mais se tem, mais se deseja, porque coisas não geram a verdadeira felicidade. O futuro não chega e o presente torna-se tristonho e vazio.
Esta correria louca, este insano desejo de construir um futuro melhor está destruindo o presente. Pais distanciam-se dos filhos, já não há relacionamento e por isso, compram os filhos com coisas, mas coisas não criam caráter. Coisas são para serem utilizadas e substituídas e desta maneira, troca-se tudo sem se preocupar e se, por algum motivo, for contrariado, usa-se da violência, pois o que vale é o ter e não o ser.
Hoje, somente hoje, proponho que não se pense no futuro, mas que se viva o presente. Que se tenha a coragem de sentar com aqueles que lhes são caros, que são amados sem reservas, e de cara limpa possa expor-se, abrir a alma e não oferecer coisas, mas sim o ser e que seja de maneira transformadora, para que, amanhã possa dizer que valeu a pena e se valeu a pena, é porque as lágrimas foram derramadas no presente, com o desejo de criar laço e não por destruir vidas e se autodestruir.
No corre-corre da vida, a vida se esvai e é preciso parar de correr e viver de modo correto. Não há futuro, temos apenas o presente, apenas o hoje, e somente hoje, é preciso investir naqueles que amamos, pois o tempo que temos é hoje e tão-somente hoje, e é hoje, que precisamos ter um presente melhor.