Vital Sousa: A pedagogia de uma caverna

A epopeia dos meninos da Tailândia me tornou ainda mais reflexivo. E feliz, muito feliz, bem melhor que todas as Copas do Mundo vencidas pelo Brasil, apesar dos apesares.

Estive em Jerusalém/Israel e fui ao túmulo de Jesus. Todos saiam de lá chorando, porque relembravam da morte, crucificação e principalmente da ressurreicão de Cristo, visto que, o sepulcro não esboçava nada além de um túmulo comum; e ainda me disseram que Jesus havia sido enterrado mais em cima da encosta, em um local muito pouco provável, pois como as mulheres poderiam chegar em tal local? Questionei logo com os meus botões. Enfim, deixei o ceticismo ensinado pelo Millor Fernandes de ser do contra e foquei na credulidade, afinal estava em Jerusalém.

Ainda na introdução deste breve arrazoado, retomo em minha memória, e muito bem uma caverna do querido Mato Grosso do Sul. E que caverna! Fica em Bonito e se chama Gruta Lago Azul. É um dos lugares mais bonitos que já conheci. É uma gruta, mas, sem armadilhas… Se inspire em https://www.bonitour.com.br/passeio/gruta-do-lago-azul?lang=pt-br

Destaco alguns ensinamentos que se eternizarão com este episódio triste, dos meninos da Tailândia, mas também possibilitador de muitas alegrias e felicidades.

ENTRETANTO…
A frase do treinador na entrevista de quarta-feira, 18/07, ainda cala fundo: “Quase todos sabem nadar. Alguns não são bons nadadores, entretanto”, disse o treinador. Não adiantava saber nadar. Em determinadas circunstâncias não adianta saber, é preciso mais e muito mais, tanto que um dos mergulhadores, com experiência e equipamentos, acabou falecendo. Em determinados momentos da vida não adianta saber, adianta crer e saber esperar. Eles souberam…

ÁGUA DA ROCHA…
“Bebíamos água que caía das rochas”, disse Pornchai Khamluan, de 15 anos. – A mesma água que alimentava o lago, alimentou os meninos, a mesma água que os ilhou, também os manteve vivos, porque sem água não se vive tantos dias. O que pode nos fazer mal, também pode nos fazer um grande bem e não depende apenas do olhar, mas de experenciar, de viver o que a natureza nos outorga. Nada é por acaso. Richard Bach: “Nada acontece por acaso.”

SABIAM O CAMINHO, MAS…
O grupo contou que estava em um local profundo da caverna. Disseram também que como havia apenas um caminho na caverna, não tinha a possibilidade de estarem perdidos. Estavam presos, mas não estavam perdidos, estavan sem saída, mas não é um labirinto. Não adiantava procurar a saída, não bastava conhecer o caminho. Eles sabiam que dependia de Deus e dos que estavam lá fora. Por mais que queiramos ser autossuficientes, a dependência vem, com ou sem medo e temos que reconhecer a nossa incapacidade, a nossa limitação. “Precisamos de vocês, desconhecidos deste planeta terra…” oraram.

FOME
O integrante mais jovem do time, Titan, acrescentou: “Eu não tinha nenhuma força. Eu tentava não pensar em comida para não ficar com mais fome”. Contava o meu avô, Vital, que a família dele era muito pobre, naquela Cuiabá-MT, no começo dos anos do século XX, e ele com seus irmãos passavam nas padarias e só de ver os queijos já se contentavam, imaginando a delícia do alimento. Titan usou da mesma estratégia, alimentava o seu cérebro para que ele dissesse ao estômago que se encontrava saciado. Quem proporcionou ao menino tamanho conhecimento? Realmente o mais jovem era um titã de tão grande… Até a fome se controla quando se quer e ponto.

CAVANDO
“Sentíamos que precisávamos fazer algo, e não apenas esperar ajuda. Então nos revezávamos para cavar. Bebíamos água até ficar cheios antes de escavar”, disse o técnico. Por mais simbólica, a atitude demonstrou um profundo ato de solidariedade e controle, sem desespero, sem desesperança. Vamos cavar, até encontrar o outro lado, quem sabe chegaremos ao Brasil, na praia de Copacabana… cabe tudo em um sonho. Ao revezar se sentiam mais próximos, mas confiantes, mais vivos. Nos momentos mais difíceis não podemos perder a lucidez, mesmo que se tenha que tirar o leite das pedras, como diz o ditado popular. E eles tentaram…

VOZES
“Foi à noite. […] Ouvimos vozes. O técnico nos disse para ficar quietos, que haviam vozes de pessoas. A gente não sabia se era real. Então paramos e ouvimos. E era verdade. Fiquei chocado”, disse Adul. Aquelas vozes, certamente, fora a música mais suave que se entoou em todo mundo. Não interessava o idioma, eram humanos, como nós. As vozes da esperança, as vozes da salvação. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” frase de Jesus que logo me veio à mente. Ouviram e deliciaram-se. Vozes que representam o fim da angústia, a alegria, os amigos, os parentes, os pais, a escola, o time… tudo de novo, naquelas vozes santas.

MORRER PARA OUTROS VIVEREM
“Sentimos muito. Ficamos impressionados que ele tenha sacrificado sua vida para nos salvar, para que pudéssemos viver. Ficamos chocados ao saber da notícia [da morte]. Ficamos muito tristes. Sentimos que causamos tristeza a sua família”, disse o técnico. Não, não causaram, causaram alegria, porque o que é viver? Talvez se não tivesse ido, tivesse morrido antes. E eles não tinham culpa de nada, afinal quando não se sabe se pode ser culpado? Não tinham a dimensão do perigo, mas o voluntário tinha. Me fez lembrar Paulo: “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro.”

Na pedagogia de uma caverna, várias frases se eternizarão…

“Serei uma boa pessoa para a sociedade”, disse um.
“Quero voltar à caverna”, afirmou um dos meninos.
“Deixar minha mãe orgulhosa”, disse outro garoto.
“Ajudar as pessoas”, afirmou um terceiro.
“Viver cada um dos segundos” da vida, disse outro.
“Fomos negligentes com nossas vidas [ao entrar na caverna]. Não sabíamos o que ia acontecer e não sabíamos o futuro. Seremos mais cautelosos, e vou viver minha vida plenamente.”
“Esse episódio é a maior experiência que já enfrentei. Me ensinou a ser mais paciente e forte, a não desistir facilmente”, disse outro deles.
Escolha uma destas para sua vida como premissa diária!

Fonte de informações: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/07/18/os-dias-na-caverna-da-tailandia-segundo-relato-dos-12-garotos-e-do-tecnico.ghtml